ALGUNS ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA ACTUAL por Antxon Mendizabal e Sagra Lopez. Publicado em ALDARRIKA: Observando de perto o inimigo. Dossier FMI, BM, GATT. Seminário Erándio 1, 2, 3, Julho de 1994. Pp 3-17
A aplicaçom no terreno sócio-económico das "novas tecnologias" derivadas desta revoluçom da microelectrónica (o robot industrial, as máquinas com controlo numérico, os sistemas de fabrico flexível, a aplicaçom da informática em campos como do design, o desenho e o cálculo, a telemática, etc) tem amplas repercussons na dinámica económica, social e política do nosso Planeta. Citaremos cá:
Nom obstante, a análise da natureza das tecnologias modernas derivadas da revoluçom microelectrónica (que estám baseadas no automatismo e se introduzem rápida e massivamente nas oficinas) mostra que a utilizaçom produtiva das novas tecnologias requer um alto nível de iniciativa por parte dos/das produtores e revaloriza aqui os aspectos do capital intangível como a motivaçom, a qualificaçom, a capacidade de iniciativa, a criatividade, a inteligência, etc., obrigando a umha "redistribuiçom do poder" no seio da empresa (14).
Para os trabalhadores/as abre-se portanto umha hipótese histórica que a nosso ver deve ser aproveitada para o questionamento do "contrato de trabalho capitalista" cristalizando umha linha que fomente o controlo dos processos de trabalho pola parte da base social e conquiste o poder de decisom desta mesma base sobre o conteúdo e destino da mais-valia produzida.
Mas a existência no mercado de trabalho de um pessoal estável e imerso nos novos métodos de gestom "post-Taylorianos", tem o seu reverso dialéctivo no controlo que o capital exerce sobre os processos de selecçom. Com efeito, através dos critérios exigidos à nova mao-de-obra para a sua inclusom nestes núcleos privilegiados do mercado de trabalho, o capital estabelece umhas condiçons sociais, políticas e ideológicas às/aos aspirantes, que estám na base dos processos de "exclusom" de aqueles/as que nom lhe forem afins.
Para além do mais, numha sociedade vincada pola escasa oferta de postos de trabalho e polo processo de funcionarizaçom, estes processos de exclusom convergem com outros (por razons ideológicas e políticas) paralelos procedentes do sector público. Os processos de exclusom agem de maneira que as/os candidatos descartados numha selecçom acumulam pontos negativos e som mais facilmente rejeitados nas selecçons seguintes.
Destarte, os processos de exclusom transformam progressivamente os sectores atingidos em sectores marginalizados. A justificaçom no nível social deste estado de cousas sob o argumento burguês de "nom serem bons para o trabalho" fai com que os atingidos conheçam um deterioramento progressivo da sua personalidade e interiorizem umha psicose de fracasso. Aqui, os/as marginalizados do trabalho defrontam sozinhos os seus problemas, transformando-se em marginalizados da sociedade e posteriormente da comunidade.
A existência crescente de bolsas importantes de marginalizaçom que funcionam com esta lógica reproduz com força na sociedade o individualismo e a cultura do medo, de jeito que enfraquece consideravelmente a capacidade de resposta social à miséria, marginalizaçom e sobreexploraçom evidentes.
É evidente que esta nova forma de "trabalho no lar", que se aplica apenas para determinadas tarefas produtivas, representa a consolidaçom de umha tendência contraposta às "equipas de trabalho" interdependentes que se implantam naquelas empresas que utilizam novas tecnologias. Trata-se de umha forma de trabalho baseada na extrema flexibilidade laboral, que aprofunda a subordinaçom do trabalhador/a ao capital (permitindo arranjar, para determinadas tarefas, as contradiçons sociais colocadas polas novas tecnologias no seio da empresa, do jeito mais favorável para o capital).
Com efeito, as novas estruturas organizativas e produtivas baseadas na descentralizaçom e deslocalizaçom do trabalho agudizam a dispersom e o isolamento laboral dos/das operárias, dificultando enormemente a actividade sindical e gerando culturas desclassadas que se motivam exclusivamente em funçom dos seus próprios interesses pessoais.
Assim, o "trabalhador/a potencial" está a dispor do empresário (de forma que este pode contratá-lo ou despedi-lo a vontade), carece de direitos de antigüidade e de possibilidades de promoçom, vive na inestabilidade salarial e tem que financiar a sua própria segurança social. O novo "trabalho a domicílio" permite à mulher realizar a sua actividade laboral sem sair do seu lar, mantendo a dupla jornada desta e num contexto familiar hierarquizado, aprofunda as suas relaçons de subordinaçom pessoal e elimina a dimensom comunitária e social que lhe achegava a contrataçom por conta alheia no trabalho da fábrica.
Nos EEUU existiam 18 milhons de trabalhadores/as a domicílio" em 1989. Na Europa, som Gram Bretanha e França os Estados mais proclives a desenvolver esta modalidade de trabalho. No entanto, consedera-se que esta fórmula de trabalho, como conseqüência da irrupçom das novas tecnologias da comunicaçom, experimentará um enorme desenvolvimento em fins de século e princípios do que vém. Assim, calcula-se que em princípios do século XXI, 15% da populaçom trabalhadora europeia (13 dos 90 milhons que comporá a sua populaçom activa) poderiam realizar a sua actividade laboral do seu próprio lar (15).
Umha das conseqüências deste processo é a polarizaçom da qualificaçom entre o centro e a periferia. Assistimos destarte à formaçom no centro de um grupo de trabalhadores/as altamente qualificados e retribuídos (conformando o "software" do processo produtivo) rodeados de uns sectores "fieis", nom tam qualificados mas suficientemente estáveis e retribuídos como para assegurar esta fidelidade. Contrariamente assistimos à formaçom na periferia (países subdesenvolvidos e sectores marginalizados nos países desenvolvidos) de umha massa de trabalhadores/as desqualificados/as e desprofissionalizados/as, e em condiçons de trabalho altamente precárias (trabalho a domicílio, subcontrataçons, eventuais, etc.)
No nível internacional, as tentativas desesperadas do Terceiro Mundo para pagar a sua dívida externa, a necessidade dos EEUU de equilibrar as suas contas exteriores e a integraçom dos países do Ex-Socialismo Soviético no mundo da economia de mercado agoiram umha agudizaçom da competência internacional. Como afirma Alain Lipietz, "tudo fai pensar que a conformaçom de um mundo cada vez mais toyotista, com elevados salários, alta tecnologia e elevada qualificaçom nos países do Centro (sob hegemonia germano-nipona) es estruturará com umha periferia em que se generaliza o modelo neo-taylorista sobre processos produtivos intensivos em factor trabalho e assentados em baixos salários e escassa qualificaçom", fazendo do "dumping social" o seu elemento mais competitivo.